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Jamil Chade

Jamil Chade

Se toda Direita fosse igual a você

Jamil Chade

11/06/2019 14h18

 

GENEBRA – Há no Brasil um esforço enorme para qualificar o atual governo como sendo de "direita". Mas, hoje, tive uma aula ao vivo do que pensa de fato a direita consciente, razoável e construtiva. E ela pouco se parece ao que vemos no Brasil.

O evento era o centenário da OIT, a organização que muitos no Brasil acreditam ser apenas um "antro" de sindicatos, bolivarianos e comunistas. Jair Bolsonaro chegou a ser convidado para o evento. Mas decidiu mandar alguém do terceiro escalão do governo para representa-lo.

Pois bem, quem fez questão de viajar até Genebra para "agradecer" a OIT por todos seus trabalhos não foi o regime cubano, nem o venezuelano e nem o chinês. Mas sim a líder da Europa conservadora: Angela Merkel.

 

 

Ao subir ao pódio nesta terça-feira, o que ela diria deixaria parte daqueles que bajulam o poder hoje no Brasil confusos. Ela não mede as palavras: está preocupada com a crescente desigualdade social hoje no mundo. "Precisamos fazer mais esforços para garantir que o crescimento da economia signifique progresso social", disse, numa frase que hoje no Brasil seria imediatamente classificada de esquerdopata.

Para ela, no campo social, o mundo vive retrocessos. "A injustiça social parece crescer", alertou. Ela ainda ressaltou: "a pobreza num lugar ameaça a prosperidade em todos os lugares". Merkel deixa claro que o mundo precisa lutar pela "paz social e preservar a dignidade humana". Segundo ela, a paz num país requer "justiça social".

Sua receita para isso: mais direitos, não menos.

Ela defendeu a criação de fundos para acidentes de trabalho, desenvolver novas diretrizes para ajudar os pais a criar seus filhos, garantir salário mínimo, a defesa dos imigrantes e até o estabelecimento de padrões trabalhistas mínimos em acordos comerciais.

Merkel afirmou que o trabalho infantil é inaceitável e soltou uma frase que, de novo no contexto brasileiro, estaria ameaçada de ser tratada nas redes sociais como "mimimi" pela "direita distante do centro". "Crianças não devem trabalhar nos campos, mas em seus sonhos".

O discurso também deu amplo espaço ao poder da mulher e Merkel deixou claro que não há alternativas: o estado (sim, o estado) precisa entrar para garantir a igualdade de gênero no mundo do trabalho.

Segundo ela, foi só com leis duras que, na Alemanha, as empresas passaram a ter um número equilibrado de mulheres e homens em seus conselhos. Nem mesmo tendo uma mulher no poder, segundo Merkel, o setor privado se moveu de forma voluntária neste sentido.

Ao longo de seu discurso, ela culpou seu próprio país pela barbárie da guerra e não tentou justificar a história. Merkel fez ainda uma forte defesa do multilateralismo e disse que, 100 anos depois da criação da OIT, ela é tão necessária como em 1919.

Ao concluir, ela prestou uma homenagem aos funcionários da OIT pelo trabalho de dar "esperança" a tantas pessoas pelo mundo. "Obrigado", disse ela. Mas Merkel alertou: muito ainda resta por fazer.

A chanceler insistiu que a forma de se mostrar um rosto humano na sociedade é garantindo um "trabalho decente" e um "local mais justo" para o emprego.

Deixou o palco sob aplausos, inclusive dos sindicatos.

Seu mandato está chegando ao final e, ao longo de seu governo, certamente errou ao exigir cortes pela UE que jogaram milhões na miséria. Ela também errou num receituário desastroso para a crise do euro, cobrando de governos ações por um desequilíbrio que apenas beneficiou a Alemanha. Ainda errou em, de forma egoísta, apenas culpar os gregos por uma crise que tinha mais de um responsável.

Ela salvou a moeda única e o projeto da Europa. Mas criou um exército de descontentes, muitos dos quais foram buscar na extrema-direita uma falsa resposta a seus problemas.

Mas, ainda assim, a líder da direita liberal mostrou nesta terça-feira diante dos representantes dos trabalhadores que sabe que uma sociedade justa se constrói com mais direitos.

Não, ela não pediu o fim do capitalismo, nem atacou aos bancos e muito menos denunciou a elite financeira.

Mas deu um claro sinal de que sabe que a justiça social é a melhor receita para os negócios, para o crescimento da economia e para a paz.

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)