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Jamil Chade

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Planalto está “procurando” modelo de governabilidade, diz ministro da Saúde

Jamil Chade

2020-05-20T19:15:01

20/05/2019 15h01

Em Genebra, ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, participa de reuniões na OMS. Maio 2019/ Jamil Chade

GENEBRA – O governo de Jair Bolsonaro está "tateando" e "procurando" um modelo de governabilidade em sua relação com o Congresso. Essa é a avaliação do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que está em Genebra para reuniões nesta semana na Organização Mundial da Saúde (OMS). Para ele, os acontecimentos que marcam os primeiros meses da gestão fazem parte "natural" do início de um ciclo. Mas aponta que a "modelagem" da gestão irá privilegiar o mérito de cada um dos assuntos a ser tratado.

Questionado se as sucessivas polêmicas no governo não estariam atrapalhando o trabalho dos ministérios, ele negou. "Isso típico de início de ciclos de governo. Você tem uma vitória do presidente Bolsonaro que, mais que uma vitória política, ela é uma vitória ideológica", disse.

"Então você tem uma ruptura. Você está falando de uma continuidade ideológica desde o FHC até o final do governo Temer. É natural que você tenha percepções diferentes, tanto da imprensa como da sociedade", apontou.

Para ele, as situações criadas dentro do próprio governo devem ser vistas como algo "natural".

"Eu sempre gosto de ver de onde viemos, dos governos anteriores. As modelagens dentro de governo. Se olhar todo o início do governo, você tem ministérios que começam de uma maneira, pessoas que não continuam, crises auto-provocadas, crises auto-solucionadas também. Se há uma coisa de bom nível no nosso governo é exatamente o nível dos ministérios. São extremamente técnicos e a montagem dos ministérios também e isso facilita muito", disse.

"Agora, é natural que você tenha, no momento que você está iniciando a formatação de base, iniciando o relacionamento com a imprensa, com a academia, intelectuais, com cultura, com todas as áreas que tinha historicamente muita proximidade com a modelagem anterior, ela assusta", justificou.

Para o ministro, essa nova governabilidade "vai acontecer naturalmente". "Parece-me mais estresse do que fato", disse o ministro, alertando que cobertura da imprensa dos acontecimentos políticos está focada na negociação dia à dia.

"O stresse principal, que é a reforma da previdência, o que eu vejo é um Parlamento entendendo totalmente a necessidade da reforma, exercendo seu papel de Parlamento de querer alterar isso ou aquilo, dialogando muito e sabendo que não adianta fazer uma reforma fraca, uma consciência", disse.

Ele acredita que o governo consegue chegar a um "bom acordo de texto". "O Parlamento vai votar bem. Ao votar essa matéria, você vai praticamente ter essa percepção momentânea de que o governo tem essa base, por ter sido aprovada com 340 votos, no melhor dos cenários. O que governo tem 340? Não, o governo vai construir essa base voto a voto. Vai ser um característica dessa modelagem. Por convencimento", insistiu.

Para ele, essa modelagem é a "maneira de governar" e a sociedade brasileira deixou claro, nas eleições, que já não mais aceitaria a estratégia adotada por governos anteriores, encerrada com a Operação Lava Jato.

"Então, qual é a modelagem? É natural que você esteja procurando, tateando. Em alguns temas, ela vai acontecer por convergência de agendas. A previdência é uma delas", disse. "Em outros temas vai ser negociada. Vejo como natural o protagonismo cada vez maior do Legislativo brasileiro. Acho que o Legislativo tem todos os instrumentos para fazer um bom papel", disse.

""Como é a proposta? Hoje, a proposta é a de vamos caso à caso. No mérito das matérias", explicou.

 

Eleição 

Na avaliação do ministro, o histórico das últimas décadas indica diferentes modelos de relação com o Legislativo.

"Durante o governo de Fernando Collor de Mello, você tinha dois ou três partidos. O PFL tinha 150 deputados e o PMDB tinha 150 e três pessoas já tinha feito. No Lula 1, o que foi feito? As pessoas esquecem. O PT colocou uma Esplanada extremamente fechada, petista, não tinha os votos. Chamou o Banco Rural e disse: eu vou dar R$ 50 mil para cada um. Façam uma fila. Hoje, quando olhamos para isso, você diz: inconcebível", apontou.

"E o José Dirceu tido como um dos maiores especialistas em articulação política por parte da esquerda. Aquilo, naturalmente, teria derrubado o presidente. Não foi derrubado por que ele não fez uma modelagem proposta, mas uma modelagem de rendição, de entregar o governo, retirar metade da Esplanada e colocar essa formatação de "tome os cargos, tome as estatais". Funcionou por conta do crescimento das commodities. Com uma economia forte, ela funcionou durante quatro ou cinco anos", explicou.

Sua avaliação é de que, com Dilma Rousseff, nada mudou. "Não propôs nada diferente", disse. "Quando a economia cai, aquela modelagem mostra que ela não é solidária com um governo quando a economia tem problemas. Apenas quando a economia vai bem. É uma modelagem de conveniência, não é programática. Houve um presidencialismo de coalizão, em nome da governabilidade", disse.

"Isso funcionou até a Lava Jato. Ela foi denunciada e a sociedade brasileira disse: eu não quero essa modelagem. Se quisesse, teria votado em outros candidatos", completou.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)