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Divulgação de vídeo defendendo golpe é “inaceitável”, diz relator da ONU

Jamil Chade

31/03/2019 17h22

GENEBRA – O relator da ONU para a Promoção da Verdade, Justiça e Reparação, Fabián Salvioli, considera que a decisão do Palácio do Planalto de divulgar um vídeo que defende o golpe de estado de 1964 é "um retrocesso inaceitável".

Neste domingo, os canais oficiais do Palácio do Planalto distribuíram um vídeo que justifica a tomada de poder pelos militares. "O Exército nos salvou", diz o narrador do vídeo. "O Exército nos salvou. Não há como negar. E tudo isso aconteceu num dia comum de hoje, um 31 de março. Não dá para mudar a história", insiste.

Neste domingo, o golpe de estado completa 55 anos. Mas, além de recomendar que a fosse comemorada nos quartéis, a Presidência também enviou sua mensagem, por meio do vídeo (abaixo).

Para Salvioli, o gesto adotado pela presidência é ainda "uma ofensa contra as vítimas que ainda não foram reparadas".

Na sexta-feira, a relatoria da ONU já tinha pedido que Jair Bolsonaro reconsiderasse sua recomendação de realizar uma "comemoração adequada" do golpe militar, ocorrido contra a democracia brasileira em 1964.

Salvioli não poupou críticas ao governo. Num raro gesto, ele chegou a qualificar a iniciativa do presidente de "imoral". "O Brasil deve reconsiderar planos para comemorar o aniversário de um golpe militar que resultou em graves violações de direitos humanos por duas décadas", disse o comunicado da relatoria da ONU.

Por telefone, Salvioli confirmou ao blog que enviou uma carta ao governo brasileiro, solicitando que a comemoração fosse reconsiderada. Mas sequer recebeu uma resposta.

Ele ainda indicou que, ao comemorar o golpe, o Brasil está violando seus próprios compromissos internacionais na esfera dos direitos humanos.

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)

Jamil Chade