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Jamil Chade

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Damares diz que executar hino é “obrigatório” e defende filmar crianças

Jamil Chade

26/02/2019 07h00

Em Genebra, ministra diz que os pais querem que seus filhos sejam filmados e aponta que ato é o começo de uma "agenda de ética e cidadania" que está sendo preparada 

 

GENEBRA – A ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, diz que a execução do hino nas escolas é uma obrigação, tanto na rede pública como nas escolas privadas, e defende a recomendação para filmar as crianças. Segundo a ministra, que está na ONU para reuniões até amanhã, isso servirá para mostrar aos pais dos menores que a lei se cumpre no Brasil e que acredita que "todos os pais" vão querer que seus filhos sejam gravados.

Na segunda-feira, o ministro da Educação, Ricardo Velez Rodriguez, enviou uma circular às escolas orientando os estabelecimentos a usar o primeiro dia de aulas para que os alunos cantem o hino e que o ato seja gravado. Os vídeos deveriam ser enviados ao governo. O slogan do presidente Jair Bolsonaro – "Brasil acima de tudo. Deus acima de todos." – também deve ser lido. Nos documentos enviados às escolas, não uma referência a uma suposta obrigatoriedade.

Em Genebra, Damares chegou a mencionar em seu discurso diante da ONU na segunda-feira que o governo estava preparando uma "agenda de promoção da ética e da cidadania, a ser adotada por escolas em sala de aula".

Nesta terça-feira, ao ser questionada pelo blog, ela explicou que, de fato, a orientação para a execução do hino faz parte dessa agenda.

"O Ministério da Educação está trabalhando nessa direção, das questões éticas e de cidadania. É mais ou menos o resgate das antigas matérias de educação moral e cívica. E ele começa já", explicou. "Inclui a questão do hino", comentou.

Para ela, o governo apenas está aplicando uma lei existente. "O governo Bolsonaro é um governo da legalidade. É um governo do cumprimento de leis e temos uma lei de 2009 que obriga a execução do hino nacional. Então, o norte desse governo é a Constituição e é a lei. Então, o nosso ministro está simplesmente cumprindo lei", disse.

"É obrigatória a execução do hino nacional em todas as escolas e já vamos começar isso agora, cumprindo a lei. Agora, no início das aulas, vamos começar a executar o hino nacional", repetiu.

Damares ainda apontou que não haverá uma isenção para colégios privados. "A lei é para todos", disse. Mas ela garante que a escola que não seguir a regra não será punida. "Não existe punição. É obrigatoriedade. A lei não fala em punição. Mas fala que as escolas são obrigadas", insistiu.

VÍDEOS – Quanto à filmagem das crianças, ela justifica. "É para mostrar aos pais que as leis estão sendo cumpridas e mostrar ao Brasil", disse a ministra, que garante que o objetivo não é o de controlar os menores.

"Isso já vemos nas escolas que executam o hino nacional, os pais ficam nas portas filmando e achando muito bonito", disse. "Temos vídeos lindos na Internet e os próprios pais ficam de longe filmando", afirmou.

Para ela, a medida faz parte ainda de um movimento maior. "É essa vontade e restaurar e restabelecer no Brasil aquela questão do patriotismo, do amor ao hino, amor à bandeira", disse.

Mais tarde, em novas declarações também em Genebra, ela voltou a defender as medidas e garantiu que "todos pais" querem que seus filhos sejam filmados.  "Todos os pais querem, tá? Essa questão de filmar não vai expor a criança, não tem essa questão da exposição das crianças", disse. "As imagens com certeza serão de longe, apenas pra mostrar que está tudo muito bonito e organizado nas escolas brasileiras", insistiu.

Ela também negou que a proposta viole o Estatuto da Criança e do Adolescente. "Acredito que não, acredito que não", disse. "É uma festa. As festas estão aí, acontecem. Cantar o hino nacional é uma grande festa. E as crianças vão gostar muito disso", afirmou a ministra.

Sobre o ato ser seguido pelo slogan de Bolsonaro que cita "Deus acima de tudo", ela rejeita a avaliação de que isso viole o caráter laico do estado. "De jeito nenhum, de jeito nenhum."

"É uma nova nação. E essa nova nação nasceu e está aí e vai permanecer", prometeu.

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)