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Jamil Chade

Leia o telegrama interno do Itamaraty sobre Mudanças Climáticas

Jamil Chade

31/07/2019 11h00

 

GENEBRA – Em reportagem publicada nesta terça-feira, a repórter do jornal Folha de S. Paulo, Patricia Campos Mello, revelou a presença de um representante do governo Bolsonaro numa reunião em Washington de especialistas que questionam as avaliações existentes pela comunidade internacional sobre mudanças climáticas.

Na reportagem, a jornalista revela também o conteúdo de um telegrama interno do Itamaraty, relatando os detalhes do encontro. Segue abaixo o telegrama na íntegra do relato que esse diplomata fez da reunião, às vésperas da aprovação do novo estudo do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, previsto para a primeira semana de agosto.

Num trecho destacado pelo diplomata brasileiro, um dos participantes do seminário resume o que acredita ser o real motivo dos alertas feitos no mundo sobre as mudanças climáticas.

"Eles estão colocando em risco nosso modo de vida. O debate não é sobre mudança do clima, nem sobre dióxido de carbono. Não é sobre clima, nem ciência. É sobre socialismo contra capitalismo". 

 

Eis o telegrama do Itamaraty:

 

EUA. Mudança do Clima. The
Heartland Institute. 13a
Conferência Internacional
sobre Mudança do Clima.
Washington, 25.7.2019. Relato.
//

Nr. 01009

 

RESUMO=

Relata os principais aspectos debatidos por ocasião
da 13a Conferência Internacional sobre Mudança do
Clima, promovida pelo think tank The Heartland
Institute, em Washington, em 25.7.2019. Evento é tido
como importante foro de análise do funcionamento do
regime internacional de mudança do clima.

À atenção do Senhor Secretário de Assuntos de Soberania Nacional e Cidadania
Realizou-se em Washington, no Trump International
Hotel, em 25 de julho corrente, a 13ª Conferência
Internacional sobre Mudança do Clima, organizada pelo
Heartland Institute, think tank fundado neste país em
1984, com o propósito de "descobrir, desenvolver e
promover soluções em favor do livre-mercado para
problemas socioeconômicos".

2. A Conferência Internacional sobre Mudança do Clima
é considerada um dos principais foros de debate sobre
aspectos relacionados com o regime internacional de
mudança do clima. Sua 13ª edição contou com palestras
proferidas por 26 cientistas dos Estados Unidos,
Canadá, Chile, Israel, Polônia e Reino Unido.
Assistiram ao evento cerca de 300 pessoas, entre as
quais acadêmicos, empresários e autoridades
norte-americanas, além do Conselheiro Lauro Beltrão,
desta Embaixada.

3. Tiveram participação destacada na Conferência o
cientista e ex-assessor da ex-primeira-ministra
Margaret Thatcher, Lord Cristopher Monckton; o
cientista hidrólogo Jay Lehr; e o cientista e
ex-assessor para Assuntos Climáticos da Casa Branca,
Myron Ebell. O cientista climatologista Timothy Ball,
autor do livro "Human Caused Global Warming – The
Biggest Deception in History", e muito influente sobre
o governo norte-americano em matéria de clima, gravou
depoimento apresentado durante o evento.

4. As apresentações e os debates concentraram-se em
três eixos: crítica aos resultados dos trabalhos
científicos do Painel Intergovernamental sobre Mudança
do Clima (IPCC), responsável por subsidiar as
negociações multilaterais no âmbito da
Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do
Clima (UNFCCC); defesa do regime de exploração de
fontes de energia não-renováveis; e rechaço à proposta
em matéria ambiental do partido Democrata – o Green
New Deal -, consubstanciada em resoluções congressuais
apresentadas em fevereiro passado pelo senador Edward
Markey (D-MA) e pela deputada Alexandria Ocasio-Cortez
(D-NY), nas quais se propunha, entre outras medidas, a
virtual eliminação de emissões de gases de efeito
estufa neste país.

5. Coube a Lord Monckton, com base em conclusões
derivadas de fórmulas matemáticas apresentadas durante
o evento, examinar o argumento prevalecente no âmbito
do IPCC de que fatores antropogênicos são o principal
fator do aquecimento global. O cientista britânico
frisou, com base nos cálculos demonstrados, que não há
evidência científica de que o dióxido de carbono,
considerado o principal gás de efeito estufa, seja o
agente gerador do aumento de temperatura ao longo do
século XX. Ao contrário, ressaltou que "o dióxido de
carbono produzido pelo ser-humano tem impacto
irrelevante sobre a temperatura da Terra … o vapor
de água é gás de efeito estufa predominante na Terra".
Assinalou que tampouco há consenso na comunidade
científica sobre o efetivo impacto da ação antrópica
sobre a mudança do clima. Defendeu ainda que governos
nacionais incentivem o crescimento econômico mundial
para permitir às sociedades se adaptarem a cenários de
mudança do clima, que são provocadas por fatores
naturais, sobretudo pela mudança cíclica do regime de
atividade solar.

6. Os demais cientistas, praticamente todos, teceram
reparos às conclusões científicas alcançadas no
contexto do IPCC, nos últimos vinte e cinco anos. Jay
Lehr, com maior ênfase, expôs que as demonstrações
empíricas do IPCC não sustentam o nexo causal entre
aumento verificado dos picos de temperatura, ao longo
do tempo, e a interferência humana no meio ambiente.
Asseverou que essa equação demandaria, ao menos, a
inclusão de variáveis, ainda não estudadas a contento,
durante expressiva variação de tempo, tais como a
mudança da radiação solar; os fluxos de energia entre
oceano e atmosfera; os fluxos de energia entre
atmosfera e crosta terrestre; o impacto das nuvens; o
regime da crosta de gelo; o equilíbrio na Terra entre
os três estados físicos da água; o regime de tornados
e furacões; os movimentos tectônicos nos fundos
oceânicos; a interação gravitacional com o campo
magnético do sistema solar. Lehr concluiu com um apelo
à comunidade científica: "Peço para que todos nós
paremos de discutir os números deles [IPCC] com os
nossos números [céticos]. O único número que importa é
zero: esse é, de fato, o impacto real do dióxido de
carbono sobre o termostato e o aumento do nível do mar
na Terra".

7. Tim Ball e Myron Ebell, por sua vez, convergiram
na crítica às políticas ambientais propugnadas pelo
partido Democrata, em particular o Green New Deal.
Defenderam, com vigor, o papel positivo que os
combustíveis fósseis e nucleares desempenham na
economia mundial. Ressaltaram que a proposta de
setores ambientalistas de reduzir, até o ano de 2050,
entre 80% e 95% da emissão dos gases de efeito estufa
significaria impor à comunidade internacional o
retorno a índices de padrão de vida socioeconômicos do
início do século XIX. Projetaram que combustíveis
fósseis e nucleares deverão continuar a responder por
cerca de 80% da produção de energia global em 2050.
Ambos recordaram, ainda, que o entendimento,
compartilhado por parte da comunidade científica, de
vinculação do aquecimento global à ação humana estaria
tão equivocado como o movimento liderado por alguns
cientistas, na década de 1970, que alertavam para os
efeitos deletérios do que consideravam "o inevitável
esfriamento global".

8. Myron Ebell, de sua parte, sublinhou que o amplo
uso dos combustíveis fósseis contribuiu, nos últimos
250 anos, para dobrar a expectativa de vida humana;
multiplicar por oito a população mundial; e
multiplicar por onze o valor da renda média global.
Disse que a aplicação das medidas de redução do uso de
combustíveis fósseis e de emissão de gases de efeito
estufa, conforme estipuladas no Acordo de Paris, no
âmbito do UNFCCC, "devastaria as economias
norte-americana e mundial … e causaria um desastre
econômico e social". Em relação ao Green Dew Deal,
Ebell salientou que a eventual implementação do
programa provocaria nos EUA, em vinte anos, a perda
líquida de 1,1 milhão de empregos, o aumento de cerca
de 30% do valor da eletricidade para as famílias, a
perda de aproximadamente US$ 15 trilhões do produto
interno bruto, durante aquele período, além do custo
orçamentário anual adicional equivalente a US$ 9
trilhões.

9. Cabe registrar um ponto em comum na conclusão de
expressiva parcela dos palestrantes da Conferência: a
predominância do caráter "geopolítico" e "ideológico"
como um dos elementos motivadores do debate
internacional em torno da mudança do clima, sobretudo
no âmbito do IPCC. "Eles estão colocando em risco
nosso modo de vida. O debate não é sobre mudança do
clima, nem sobre dióxido de carbono. Não é sobre
clima, nem ciência. É sobre socialismo contra
capitalismo", afirmou Lehr.

10. Ao final do evento, o Diretor de Clima e Meio
Ambiente do Heartland Institute e organizador da
Conferência, James Taylor, comentou ao diplomata da
Embaixada que a entidade encaminhará ao Presidente
Donald Trump carta com pedido para que o mandatário
norte-americano continue a contrapor-se ao que ele
considera "falsas crises do clima defendidas pela
esquerda política". O Diretor do Heartland Institute
também indicou disposição de cooperar com entidades
não governamentais no Brasil relacionadas com os temas
examinados durante a Conferência.

Nestor Forster Jr., encarregado de negócios, a.i.

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)