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Jamil Chade

Como deputada, brasileira ganha menos que professora primária… na Suíça

Jamil Chade

18/04/2019 04h00

Carine Carvalho é deputada estadual na Suíça. Foto: Jamil Chade

 

LAUSANNE – Ela não tem motorista, não tem auxílio-moradia, não tem carro oficial nem pode nomear funcionários. Para comer, precisa pagar de seu bolso e seu salário depende da quantidade de horas que ela passa por semana no Poder Legislativo.

Essa é a vida de deputada cearense Carine Carvalho. Ela, porém, não exerce seu mandato no Brasil. Carine é deputada no cantão de Vaud, na Suíça, uma espécie de deputada estadual. "Como deputada, sou eu e eu mesma", contou ao blog. "Não posso nomear ninguém", disse.

Ela desembarcou na Suíça em 2000 com a família, fez o colegial, universidade e passou a ser cidadã lá. Logo, entrou para a vida de militância. Em 2015, aderiu ao Partido Socialista. Um ano depois, assumiu a cadeira de vereadora de Lausanne. Em 2017, foi eleita deputada estadual.

Por mês, sua renda como deputada não chega ao salário de uma professora primária. Hoje, seu pagamento é inferior à média de um salário de um fabricante de queijo, menor que a renda de um mecânico de carros na Suíça, de uma secretária, de um policial, de um carpinteiro, de uma professora de jardim de infância, de um metalúrgico e de um motorista de caminhão.

Por ano, é o equivalente ao pagamento médio atribuído a um artista de circo ou a um ajudante de cozinha, postos ocupados em grande parte por imigrantes.

No Brasil, o salário de um deputado estadual chega a R$ 25.300 por mês em São Paulo, por exemplo. Além disso, os parlamentares brasileiros têm direito a uma verba mensal (o chamado "cotão"), que pode superar R$ 30 mil, para custeio de gastos de alimentação, transporte, passagens aéreas e despesas de escritório.

Empregos originais são mantidos – A brasileira explica que a função de deputada consome 30% do seu tempo de trabalho e que todos são orientados a manter seus empregos originais, mesmo depois de eleitos.  Ela, por exemplo, mantém seu emprego na universidade, onde é chefe da secretaria da igualdade de gênero da instituição.

Já como política, recebe cerca de 3.000 francos suíços em meses que acontecem muitas reuniões e trabalhos parlamentares.

"Ganhamos por sessão. A cada uma delas, que dura o dia todo, ganhamos 480 francos suíços", disse Carine. O Grande Conselho, como é chamado o Parlamento Estadual, se reúne uma vez por semana, todas as terças-feiras das 9h30 às 17h.

Se o representante chega atrasado, não recebe o valor integral. Se o deputado aparece apenas à tarde ou pela manhã, recebe pela metade. Já as reuniões de comissões temáticas ficariam entre 80 e 200 dólares, dependendo da duração.

"A ideia da Suíça é uma política de milícia. Esse é o outro lado da democracia direta. Uma política próxima do cidadão. Normalmente, você sabe quem é teu representante. A relação com o político é muito próximo. Até o presidente anda de transporte público", explicou.

Essa proximidade, porém, também foi alvo de debates. Nas últimas eleições, a violência sexista contra as eleitas entrou na agenda. "Muitas receberam cartas de insultos e ameaças. Quando tivemos uma discussão sobre Brumadinho (MG), recebi insulto nas redes sociais, racista", contou a cearense.

Ainda assim, o controle popular sobre a política é real. "Se você não gostou do que teu representante fez, você faz um referendo. O que o mundo político faz, o povo pode desfazer. Aqui, a política é mais lenta e complexa. Mas é mais duradoura e uma decisão tem uma legitimidade grande", completou.

Sobre o autor

Com viagens a mais de 70 países, Jamil Chade percorreu trilhas e cruzou fronteiras com refugiados e imigrantes, visitou acampamentos da ONU na África e no Oriente Médio e entrevistou heróis e criminosos de guerra.Correspondente na Europa há duas décadas, Chade entrou na lista dos 50 jornalistas mais admirados do Brasil (Jornalistas&Cia e Maxpress) em 2015 e foi eleito melhor correspondente brasileiro no exterior em duas ocasiões (Prêmio Comunique-se). De seu escritório dentro da sede das Nações Unidas, em Genebra, acompanhou algumas das principais negociações de paz do atual século e percorre diariamente corredores que são verdadeiras testemunhas da história. Em sua trajetória, viajou com dois papas, revelou escândalos de corrupção no esporte, acompanhou o secretário-geral da ONU pela África e cobriu quatro Copas do Mundo. O jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparencia Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti.

Sobre o blog

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)